problemas

3 grandes neuroses aleatórias sobre possíveis causas para um término

joão baldi jr. Comentários

SARAH MARSHALL

O retorno do rei – O passado era passado, o que terminou ficou pra trás e o que importava era o futuro, ela disse quando vocês se conheceram. Daí a sua despreocupação quando aquele ex-namorado que morava em outra cidade voltou e ela disse que eles iriam se encontrar, falar sobre os tempos da faculdade, tomar uma cerveja. Você, ocupado, sabe como é o trabalho, disse que não, que tudo ok, que ela fosse e se divertisse, você tinha outras coisas a fazer e nem ia ter muita graça, você não ia entender as piadas mesmo. E eles saem um dia, e eles saem outro dia, e num dado momento num futuro próximo ela senta na sua frente e diz que não dá mais, que ela está se sentindo culpada, que na verdade ela nunca esqueceu aquele cara, que não é nada contigo, mas o que eles sentem é real e pra sempre. E aí você percebe que na verdade não era o titular mas sim o reserva, que não era o protagonista mas sim o substituto, que não era o Romário mas sim o Viola, que se o seu namoro fosse o filme de volta para o futuro você não seria o Michael J Fox e sim o Eric Stoltz. Na noite seguinte, abraçado a uma garrafa de vodka, você procura o nome do Eric Stoltz no IMDB, vê os filmes que ele fez e chora bastante.   Continua…

Quando você diz que sente falta de ser solteiro eu penso em

joão baldi jr. Comentários

himym-right-place-right-time-cowboy-ted

# e ali você era o inocente útil. falaram que queriam te convidar por causa da música, que pensaram em você por conta do lugar, que tu não podia ficar de fora por causa da comida, mas na verdade você tava ali pra completar quatro no táxi, longe pra caramba a barra da tijuca, bandeira dois moendo, vai saber. chegando lá a música era ruim, a comida era cara, a faixa etária era errada e um cara muito musculoso coberto de glitter num dado momento tirou a camisa e quis te abraçar, te chamando de rômulo, você tá muito confuso. sentado na mesa, olhar perdido, perguntou pro garçom a senha do wi-fi, ele disse que ia trazer, trouxe um drink hi-fi, tu nem gosta de fanta laranja. começa a resmungar com seu casal de amigos em voz alta, diz que quer voltar, arca com a despesa do táxi, arca com a despesa do bar, arca com a dívida externa de diversos países em desenvolvimento, só quer ir pra casa. na mesma mesa, desolada, gatinha amiga da amiga da amiga, também dano colateral da balada, pratica os mesmos resmungos, não tá nada feliz, a aparência é de tristeza e abandono. amiga senta entre vocês dois, já mais alta que uma pipa, falando engrolado porque enrolado é complicado de falar. diz que vocês tão perdendo a festa, fala que precisam aproveitar, abraça os dois, fala que são duas pessoas ótimas, que na verdade até combinam, ela queria juntar os dois, te chama de rômulo também, você começa a achar que tá tudo errado. amiga insiste, você levanta a cabeça, olha pra gatinha com aquele ar de “estou constrangido mas aí até aprovo esse esquema se você quiser eu tô beleza, aproveitar essa noite linda, que tals?” e vê nos olhos da gatinha uma negação e um terror abjeto nunca dantes vistos pelo homem, já que a warner não quis financiar aquela versão do del toro pras montanhas da loucura do lovecraft. paga a conta, paga o táxi, paga o parabéns, vai pra casa, liga o xbox, entra na live, conexão tá ruim, perde de sete a zero porque o time se move em slow motion, vai dormir. a fanta laranja do hi-fi ataca a tua gastrite durante a noite.

Continua…

Dos robinhos da maldade, dos denílsons da babaquice

joão baldi jr. Comentários

denilson-brasil-x-turquia1_noticia_imagem

Por mais que nós tenhamos consciência de como o mundo é duro, a realidade é complexa e nem sempre aqueles ideais de amizade, harmonia e um coleguinha emprestando o giz de cera pro outro, que aprendemos em casa e na escola, conseguem ser diretamente aplicados por todos na vida real, é sempre um certo choque quando somos obrigados a aceitar que alguma pessoa, seja ela próxima ou distante, está agindo de forma deliberada visando nos prejudicar. Afinal, na nossa narrativa pessoal nós somos os protagonistas, na nossa visão de mundo nós somos os mocinhos, no star wars de cada um somos todos Luke Skywalker e ninguém quer ser Darth Vader (ainda que eu pessoalmente ache mais bacana ser o Lando por que nada supera o combo capa e bigode).

Continua…

Mini-conto #17 – Uma breve justificativa

joão baldi jr. Comentários

Cute-Marshall-how-i-met-your-mother-1062493_500_282

Eu ando tendo uns problemas no trabalho. Desgaste, cansaço, estão me impedindo de sair pra procurar outra vaga, coisas assim, sabe?  Tive uma conversa franca, tentei argumentar, apresentei propostas, mas as coisas não andaram. Aí um dia esperei todo mundo sair e escrevi nas cascas das bananas que eles deixam no cesto de frutas palavras como “morte”, “terror” e “medo”, de maneira que conforme as frutas forem amadurecendo e as letras forem ficando pretas eles imaginem que o nosso andar tem fantasmas.

Continua…

Sobre sua tia, as idosas do flamengo e traços de uma ditadura da cronologia

joão baldi jr. Comentários

tumblr_m8g94zakj61rd2l87o1_500

Desde pequenos somos treinados para respeitar os mais velhos. Seja obedecendo o papai, seja não respondendo a mamãe, não gritando com a vovó ou apenas não fazendo perguntas sobre quem são aqueles caras que toda madrugada entram com duas caixas de isopor, uma fantasia de garibaldo e sete pistolas d’água no quarto da titia, somos basicamente doutrinados a acreditar no adulto– ou genericamente no “mais velho” – como o repositório máximo de autoridade e poder, seja ele um familiar, um professor ou apenas o segurança do shopping que insiste em pontuar que precisamos fazer aquela haste mecânica efetivamente segurar o brinde e não vale tentar apenas enfiar o braço logo naquela caixa de vidro pra tirar o ursinho, isso é ilegal e vou chamar seu pai.

Continua…

Da necessidade de canais incomuns para escape de frustração em situações de irritação repetitiva

joão baldi jr. Comentários

tmnt02a

Daí que você tem um problema. Não é um problema novo, não é um problema grande, não é um problema dramático, não é um problema inédito, é apenas um problema. Ele já vem de algum tempo, ele já vem consumindo algum esforço, ele já foi comunicado a todas as pessoas com quem você tem contato o bastante para comentar sobre algum problema seu. Com algumas você abordou o problema de forma vaga (“ah, sei como é, também tenho esse problema”), com outros de forma pormenorizada (“então, e por causa disso, disso e disso, isso é um problema, me deixa trazer o retroprojetor, eu fiz umas lâminas”), mas nesse meio tempo o problema persistiu, não foi resolvido, e a duração dele não fez diminuir o seu nível de contrariedade em relação ao problema. Na verdade ele apenas vem aumentando.

Continua…

Sobre sistemas, pessoas e coisas que não têm preço

joão baldi jr. Comentários

community-s03e13-subway-person

Vivemos numa era de sistemas, redes e organizações. Sistemas para transmitir informações, redes para nos socializar, conglomerados que lidam com todo tipo de atividades, desde empresas que te permitem usar o mesmo software em qualquer escritório até marcas que te permitem comer o mesmo prato em qualquer lugar do mundo. E conforme esses sistemas, redes e organizações vão crescendo e se tornando cada vez mais poderosos, essenciais e familiares acabamos perdendo de vista um dado muito importante sobre todos eles: qualquer sistema, rede ou organização é composto, em algum grau, por pessoas.

Continua…

Mini-conto #16 – A nossa sexta última vez

joão baldi jr. Comentários

pandrroad_story

Da primeira vez ela foi embora por dois dias. Na sexta à noite ela disse que as coisas estavam indo rápido demais, que precisava pensar, mas que achava que a resposta era não. Me telefonou enquanto eu cochilava no sofá da minha mãe pra dizer que na verdade era um talvez, se eu ainda quisesse. Eu disse que queria.

Da segunda vez ela foi embora por quase uma semana. Disse que tinha sido um erro, que não queria assim. Não atendia o telefone, não descia na portaria. Apareceu na frente do meu trabalho e disse que a gente deveria beber um café, mas eu nunca bebi café. Falou que as vezes ela duvidava e eu disse que todo mundo duvida às vezes, o que era mentira, porque eu sempre tive certeza.

Continua…

Colegas que não ajudam o seu trabalho #23, #24 e #25

joão baldi jr. Comentários

andy

O cagão – Extremamente cioso da própria posição profissional, esse colega apresenta um estado constante de total e completa paranóia em relação a sua manutenção no emprego. Ele tem medo de contrariar o gerente, receio de discutir com o coordenador, pavor de contradizer o supervisor, não gosta de se envolver em argumentos com colegas de trabalho, evita questionar pessoas da outra gerência e uma vez foi visto trazendo um café para o estagiário porque ele parecia meio chateado e nunca se sabe que contatos aquele garoto pode ter. Incapaz de negar uma solicitação, questionar uma ordem ou apenas avisar que montar a árvore de natal da gerência não é exatamente trabalho de designer, a tendência natural desse profissional é sempre a de acumular demandas sem sentido, se perder em tsunamis de retrabalho e ficar até as 20:00 no escritório revisando o convite pra festa de 15 anos da tartaruga de um gerente que pediu com muita insistência. Ainda que visto como um perigo apenas para si mesmo, ele quase sempre arrasta em sua paranóia seus colegas de setor, que acabam envolvidos nas suas atividades e passam muita raiva, principalmente por sempre terem sido péssimos montando essas árvores de plástico. Aqueles encaixes apenas não fazem sentido pra mim, sério.

Continua…

Mais dois casos clássicos dos double binds da vida

joão baldi jr. Comentários

GM-Bluth-george-michael-bluth-861999_500_280

#Você organiza pelada e pelada é só amigos, pelada é só alegria. Futebol society, campinho gramado, barzinho do lado. Dois timinhos de seis, espaço pra trabalhar a bola, pensar na tranqüilidade, tocar pra quem tá mais bem posicionado, desenvolver a malícia desportiva. Timinho de fora pra manter competitividade, mas não completo, rola par ou ímpar pra ver quem fica. Durante dois meses tá de boa. Mês seguinte não tem timinho de fora, mas tá tranqüilo,corre mais, ainda que com menos seriedade porque sem sair você sabe como malandro fica. Um mês depois começa a ficar complicado de dar doze, tem que chamar galera da pelada anterior pra completar, mas tá de boa, é coisa do momento, janeiro é foda, geral de férias. Aí na outra semana só tem dez, maior correria, mas a pelada rola. Aí numa quarta chove e só tem seis, seis é foda. Na outra vão cinco, cinco é sacanagem. Falta dinheiro pra quadra, pelada mia, você fica puto. Manda email reclamando e pedindo pra cada um levar um amigo, pra pelada não morrer, email emocionado, usa a palavra “comprometimento” em itálico sublinhado. Chega quarta, cada um leva seis amigos. Pelada lotada, oito times de fora. Você pensa que agora tá bacana. Galera sai puta porque tinha gente demais e não rolava de jogar. Você pede pra galera confirmar no site antes de ir, pra isso não acontecer mais. Na outra semana tem seis pessoas. Depois tem cinco. Cinco é sacanagem. Você acaba com pelada. Organiza outra pelada. Outra pelada é só amigos, outra pelada é só alegria. Um dia você chega lá e só tem seis caras. Seis é foda.

Continua…