
Eu não me dou bem com festas surpresa. Eu sei que é chato falar uma coisa dessas porque muita gente costuma acreditar que a festa surpresa é o supra-sumo da demonstração de afeto humano no universo conhecido(“passamos o dia todo te ignorando e minando sua já fraquejante auto-estima fingindo que não nos lembramos do único dia no ano em que você é relativamente especial, mas em compensação nos organizamos pra te dar um puta susto e fazer seu músculo cardíaco perder seis anos de vida útil. Cool, huh?”) mas eu realmente não me dou bem com o conceito da coisa. E isso acontece por várias razões.
Primeiro porque a minha personalidade e o meu temperamento não combinam com festas surpresa. Sério, eu sou um cara pessimista e para alguém pessimista poucas coisas são mais aterrorizantes do que uma surpresa. Chernobyl? Foi uma surpresa. Ascensão de Hitler ao poder? Surpresa! Desastre do Titanic? Surpresa! Eu ter sido obrigado a ver o filme Titanic? Meu Deus, quem poderia imaginar?! Ou seja, pra mim o conceito de “surpresa agradável” funciona basicamente como o conceito de “música militar”, “bom filme da Xuxa” ou “uma grande partida do Dênis Marques”: uma contradição em termos. Eu vejo pessoas saindo do escuro no meio da minha sala ou gritando comigo pelas minhas costas e vou provavelmente pensar que é uma invasão alienígena comandada por Inri Cristo visando obrigar todos a ouvir sua versão de “Just Dance” da Lady Gaga antes de achar que é uma comemoração de aniversário.
E claro,ainda tem uma coisa da qual pouca gente se toca mas que sempre passa pela minha cabeça quando me fazem uma festa assim: meus amigos e meus familiares se reuniram, pelas minhas costas, para tramar alguma coisa. Não sei vocês, mas eu acho isso perturbador! Minha mãe dando telefonemas escondida, meu irmão sumindo de casa sem explicação, meu melhor amigo fugindo de assuntos para não me dar pistas, tudo isso é meio aterrorizante, não? Fora que, ok, hoje foi uma festa, mas quem garante que amanhã não vai ser um assassinato, uma trama de extorsão, um golpe coletivo pra que eu pense que estou maluco e perca todos os meus bens?! Ok, eu exagerei, vou parar. Mas vocês entenderam como a espiral de paranóia funciona comigo.
E como se não bastasse isso ainda tem o meu histórico com esse tipo de festa. Ok, a desse ano foi legal (ainda mais porque a minha mãe me contou sobre a surpresa e eu mesmo telefonei para os meus amigos perguntando se eles não poderiam me surpreender uma hora mais tarde porque eu tinha que dar uma saída), mas as duas tentativas anteriores foram, não sei, confusas. Não que a festa que meus amigos organizaram na faculdade não tenha sido muito boa (na verdade a surpresa foi tão boa que eu achei que a festa era pra uma outra amiga minha e só fui notar que eu estava envolvido lá pelas últimas horas do evento) ou mesmo que aquela planejada pela minha ex-namorada nos tempos do colégio não tenha sido espetacular (afinal, o que pode surpreender mais um cara do que, assim que entra no próprio quarto e tira as calças, notar que as luzes se acendem e vários amigos da namorada, alguns que ele mal conhece, surgem de debaixo da cama e começam a gritar?), mas não sei, não acho que eu tenha sido capaz de pegar a graça do conceito como deveria.
Possivelmente eu sou apenas um cara resmungão e que não consegue processar bem certas manifestações de afeto um pouco mais engenhosas dos amigos (eu ainda fico perturbado quando a pessoa gasta semanas planejando uma festa pra você e te dá um par de meias, por exemplo) ou apenas uma cara resmungão e ponto, e tenho que admitir que o meu aniversário desse ano foi realmente muito bom (mas vou falar mais disso depois), mas como eu disse, não me dou bem com festas surpresas e espero que os meus aniversários continuem sendo divertidos e as pessoas continuem me avisando sobre o que querem fazer com ele. E claro, que não me surpreendam, por favor.