crise de meia meia idade

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3 grandes neuroses aleatórias sobre possíveis causas para um término

joão baldi jr. Comentários

SARAH MARSHALL

O retorno do rei – O passado era passado, o que terminou ficou pra trás e o que importava era o futuro, ela disse quando vocês se conheceram. Daí a sua despreocupação quando aquele ex-namorado que morava em outra cidade voltou e ela disse que eles iriam se encontrar, falar sobre os tempos da faculdade, tomar uma cerveja. Você, ocupado, sabe como é o trabalho, disse que não, que tudo ok, que ela fosse e se divertisse, você tinha outras coisas a fazer e nem ia ter muita graça, você não ia entender as piadas mesmo. E eles saem um dia, e eles saem outro dia, e num dado momento num futuro próximo ela senta na sua frente e diz que não dá mais, que ela está se sentindo culpada, que na verdade ela nunca esqueceu aquele cara, que não é nada contigo, mas o que eles sentem é real e pra sempre. E aí você percebe que na verdade não era o titular mas sim o reserva, que não era o protagonista mas sim o substituto, que não era o Romário mas sim o Viola, que se o seu namoro fosse o filme de volta para o futuro você não seria o Michael J Fox e sim o Eric Stoltz. Na noite seguinte, abraçado a uma garrafa de vodka, você procura o nome do Eric Stoltz no IMDB, vê os filmes que ele fez e chora bastante.   Continua…

Do eterno dilema bumbum/virilha

joão baldi jr. Comentários

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E então você está lá com a gatinha no cinema. A noite é bonita, a conversa é interessante, a previsão do tempo garantia chuva mas o único clima que você consegue perceber é de romance. A pipoca está gostosa, as balinhas estalam na boca com doçura e a vida parece curta, mas não tão curta quanto aquela sainha sensacional que ela está usando – você já consegue imaginar aqueles belos joelhos tocando os seus durante essa simpática sessão cinematográfica. O filme é de terror, ela disse que sente medo, perguntou se pode segurar a sua mão e você sente que a vitória se aproxima, o sucesso é garantido e antes do final da noite você já vai ter chamado aquela linda de Terra de Vera Cruz e colonizado aquele corpinho todo.

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Mini-conto #17 – Uma breve justificativa

joão baldi jr. Comentários

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Eu ando tendo uns problemas no trabalho. Desgaste, cansaço, estão me impedindo de sair pra procurar outra vaga, coisas assim, sabe?  Tive uma conversa franca, tentei argumentar, apresentei propostas, mas as coisas não andaram. Aí um dia esperei todo mundo sair e escrevi nas cascas das bananas que eles deixam no cesto de frutas palavras como “morte”, “terror” e “medo”, de maneira que conforme as frutas forem amadurecendo e as letras forem ficando pretas eles imaginem que o nosso andar tem fantasmas.

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Sobre sua tia, as idosas do flamengo e traços de uma ditadura da cronologia

joão baldi jr. Comentários

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Desde pequenos somos treinados para respeitar os mais velhos. Seja obedecendo o papai, seja não respondendo a mamãe, não gritando com a vovó ou apenas não fazendo perguntas sobre quem são aqueles caras que toda madrugada entram com duas caixas de isopor, uma fantasia de garibaldo e sete pistolas d’água no quarto da titia, somos basicamente doutrinados a acreditar no adulto– ou genericamente no “mais velho” – como o repositório máximo de autoridade e poder, seja ele um familiar, um professor ou apenas o segurança do shopping que insiste em pontuar que precisamos fazer aquela haste mecânica efetivamente segurar o brinde e não vale tentar apenas enfiar o braço logo naquela caixa de vidro pra tirar o ursinho, isso é ilegal e vou chamar seu pai.

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Pequeno constrangimento cotidiano cíclico #89

joão baldi jr. Comentários

McLovin-id

Você tem quase trinta anos mas ainda é bastante imaturo. Você não sabe se é culpa do ambiente, se tem a ver com a sua criação, se é porque metade dos seus genes vieram de um cara que uma vez foi chamado de passivo-agressivo e respondeu dizendo “uuuuuia” com voz fina. Mas você sabe que é meio imaturo.

E isso se reflete em diversos aspectos da sua vida, que vão desde questões graves como insegurança, problemas de relacionamento e dificuldades de comunicação com os outros até problemas mais cotidianos como se sentir pressionado quando pede comida pelo telefone, pagar mais caro em corridas por medo de discutir com o taxista ou apenas rir histericamente toda vez que assiste o filme Hudson Hawk, o Falcão está a solta, que você considera o melhor filme de Bruce Willis fora da franquia Duro de Matar. E claro, você tem uma enorme dificuldade para comprar camisinhas.

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Mini-conto #15 – Diabolyn

joão baldi jr. Comentários

cavalodefogo

Em minha defesa eu preciso dizer que fui pego de surpresa.

Era uma viagem de reconciliação, sabe? Eu tinha pisado na bola, ela tinha sido muito dura, passamos uns dias sem se falar. Eu telefonei primeiro, ela me ignorou, eu tive que telefonar de novo, mandei mensagens. Ela não queria me ver, eu tive que telefonar pra uma amiga, descobri que não era tão minha amiga. Tive que esperar na porta da casa dela, levei flores, estava chovendo, elas chegaram amassadas. Ela demorou pra voltar e eu peguei no sono na porta, só acordei com ela tentando entrar sem eu perceber.

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Por uma breve teoria narrativa dos tremendos vacilos

joão baldi jr. Comentários

evil abed

Uma tendência natural em todo ser humano é a de comparar sua vida a um processo ficcional de narrativa. Existem as pessoas, que atuam como personagens, existem as sequências de eventos e suas conseqüências, que formam a trama, existe um começo claro, um final pontual e uma passagem delimitada de tempo. Dentro dessa lógica nos vemos como protagonistas de uma história específica, que varia entre os mais diversos gêneros e que pode envolver ação, aventura, romance, terror ou apenas muitas pessoas falando sobre muitas coisas durante muitas horas enquanto toca uma música engraçadinha ao fundo e no final o Bill Murray te dá um abraço porque essa meio que é a onda do cara.

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Grande mito lendário da masculinidade #56

joão baldi jr. Comentários

A história quase sempre é contada num bar, boteco ou churrasco, ali por aquela altura em que o volume de álcool consumido já foi alto o bastante para maximizar amizades, potencializar vínculos, gerar promessas de mudanças de vida e ao menos seis gritos de “porra, cara, a gente precisa se ver mais” mas ainda não atingiu o nível necessário pros abraços emocionados, as versões chorosas de canções sertanejas e as revelações de caráter duvidoso – “assim, não que eu seja gay, mas se eu fosse, sabe? se eu fosse, e tivesse que me vestir de mulher, tipo, sendo obrigado mesmo, eu me chamaria etyenne. com y. acho bonito, não sei”.

A fonte tem sempre uma relação indefinível e vaga com o protagonista, como sói acontecer em todos os mitos urbanos de tradição oral. Às vezes é o primo de um amigo, de vez em quando é o chegado de um colega de serviço, de vez em quando é o cunhado de um cara que jogava bola com você em humaitá, não sei se você lembra, era o da cabeça raspada, o que foi pra belém por causa do trabalho, não sei como você não tá lembrando. Quase sempre a trama começa numa despedida de solteiro de um outro amigo, também desconhecido.

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Sobre primeiros beijos, saltos de fé e todo esse medo de portfólios, originais e empregos novos

joão baldi jr. Comentários

Uma teoria que eu sempre tive é a de que em nenhum momento, independente de qual seja, o tempo se move tão lentamente quanto naqueles momentos antes de um primeiro beijo. Sim, os poucos segundos, logo antes dos lábios se encontrarem, em que você já moveu o corpo, olhou diretamente nos olhos, e começou a aproximar o seu rosto do dela, manifestando claramente suas intenções, deixando de lado qualquer resquício de fingimento e abandonando de vez aquela farsa de que vocês efetivamente saiam do trabalho todo dia no mesmo horário ou magicamente entravam no gtalk na mesma hora quando estava óbvio que você ficou mais de vinte minutos passando frio do lado de fora daquele prédio e estava offline jogando marvel ultimate alliance o tempo todo.

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Minhas mais sinceras desculpas

joão baldi jr. Comentários

Um problema que eu tenho é que eu peço desculpas demais. Não sei bem explicar quando começou, não sei se tem a ver com questões de autoestima, se é um tique nervoso ou se eu apenas tenho o mais estranho caso de tourette reverso que a medicina já registrou – “então eu estava lá…ME DESCULPE…conversando com ela e…MIL PERDÕES GENTIL SENHORA…sobre o calor que estava fazendo…EU ASSUMO TODA A RESPONSABILIDADE…” – mas a verdade é que eu, desde a adolescência, peço desculpas com uma freqüência bem mais alta do que a do resto das pessoas.

Continua…