Arquivos do mês março 2012

Dez textos de uma breve egotrip patrocinada

joão baldi jr. Comentários

Para os que não se lembram, 2010 foi basicamente o ano da virada aqui no Just Wrapped em termos de visibilidade, já que no mesmo curto período de tempo não apenas fomos apadrinhados pelo conglomerado Interbarney – lucrativo como um agiota do interior porém carinhoso como um afago de mãe – como  comecei a escrever artigos para o Papo de Homem, um portal com um fluxo de leitores infinitamente maior do que esse humilde blog e cujo nome a galera efetivamente consegue pronunciar – “como se chama seu blog mesmo, joão? justiça na lapa? é isso?”.

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Diários da ex-adolescência #6 – O estagiário pornô [2/2]

joão baldi jr. Comentários

 

Da primeira vez foi uma coisa inocente, claro. Ele se aproximou, perguntou se estava tudo bem e se eu, que entendia dessas coisas de internet, poderia dar uma força. Ele queria baixar uns filmes e não sabia onde procurar. Eu, estagiário, fui dando indicações sobre torrents, sites de filmes legendados, essas coisas, até entender exatamente de que tipo de filme ele falava e explicar que bem, eu não poderia ajudar num assunto assim, feria minha ética profissional, sabe como é. Primeiro porque eu sempre vi a pornografia da mesma maneira que o álcool – é interessante, ajuda a relaxar,durante a adolescência você talvez exagere na dose e não consiga responder a algumas perguntas dos seus pais, mas quando começa a afetar sua vida pessoal e seu trabalho é porque você está indo longe demais. E depois porque, bem, era eu baixando pornografia pra um cara. Isso é esquisito, de diversas formas. Não é bacana.

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Diários da ex-adolescência #6 – O estagiário pornô [1/2]

joão baldi jr. Comentários

A época era o começo dos anos 2000, a cidade era Viçosa, o período era o sexto da faculdade de jornalismo, as aulas de fotografia eram feitas com pinhole, a vida era complicada, o contexto econômico era catastrófico. Após anos de uma confortável vida como jovem de classe média eu me via, após a implosão das empresas pontocom, a crise do óleo no oriente e a demissão do meu pai, obrigado a finalmente me defrontar com a realidade de um mundo sem mesada, sem dinheiro pra livros, sem mochila nova e onde independente da sua opinião sobre café da manhã, almoço e jantar, a refeição mais importante do dia seria fatalmente o macarrão com salsicha.

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Medidas pessoais preventivas para uma vida mais saudável #17 e #18

joão baldi jr. Comentários

#17 – Sempre que, numa conversa com uma garota de quem você não está afim, essa garota mencionar o fato de que tem namorado você é obrigado a, tendo ou não interesse, assunto ou tempo para isso, conversar com ela por pelo menos mais dez minutos para que ela não pense que você estava interessado e subitamente desistiu diante do fato de que ela é comprometida.

Sim, isso pode tornar você refém de conversas bizarras, assustadoras ou apenas sem sentido – “então, eu preciso ir, mas foi legal conversar e tudo mais” – “ah, você não quer ver mais fotos dos meus gatos? essa aqui é com o meu namorado também e…” – “…ok…eu vou ficar, me mostra mais algumas. mas dessa vez escolhe as que tem os gatos mais gordinhos pelo menos” – mas evita mal-entendidos e te poupa de situações esquisitas nas quais você mal lembra de uma pessoa mas ela tem certeza que partiu seu coração, toma todas as suas atitudes como indiretas e fala com a galera da copa que você bebe esses seis copos diários de água porque está “tentando esquecer”. Continua…

Mini-conto #11: “Carol Brown apenas pegou um ônibus pra fora da cidade”

joão baldi jr. Comentários

Cíntia disse que estava tudo bem e no meio da noite foi embora levando roupas, discos, livros, anseios, sonhos e minha única mala de rodinhas. Que ela nunca devolveu. Jéssica me deixou pra trás numa fila de cinema, com um imenso medo de me envolver e dois ingressos pra sessão das nove de “A casa do Lago”, perdas que ninguém nunca vai poder me ressarcir. Carina me trocou por um colega de trabalho que era mais alto e ainda comentou com as amigas que agora poderia voltar a usar salto.

Letícia me pediu pra não ligar mais e prometeu mandar minhas coisas pelo correio, mas nunca fez questão de confirmar meu endereço ou mesmo de fazer comigo um checklist pra saber quais seriam as minhas coisas. Clara me chamou de infantil e foi embora, Lisandra mudou de telefone, Cecília mudou de cidade, Mariana mudou de país. Paula alegou ter mudado de país, mas dois meses depois alugou um apartamento no mesmo andar que eu e numa manhã de sábado ainda bateu na minha porta pedindo açúcar. Não que com isso eu tenha algum problema, apenas achei grosseiro ela reclamar quando viu que eu só tinha cristal. Fernanda mudou de opção sexual e agora sai com garotas, mas eu não gosto de falar sobre isso porque meu apelido na faculdade era Ross e sempre dá trabalho explicar que não é porque eu gosto de dinossauros.

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5 sugestões de músicas para um pancadão efetivamente neurótico

joão baldi jr. Comentários

MC Sapão – Eu tô tranquilão (apenas no exterior já que por dentro ando me roendo de insegurança em relação ao nosso relacionamento)

MC Leozinho – Ela só pensa em dançar (o que tem me deixado meio preocupado porque ela está me dando menos atenção e eu acho que isso só pode querer dizer que ela quer terminar)

MC Marcinho – Tudo é festa (exceto pra mim porque eu não consigo me concentrar nas comemorações já que mandei esse sms pra ela dez minutos atrás e ela ainda não respondeu, o que só pode querer dizer que ela quer terminar)

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Mini-conto #10: “Meg Ryan”

joão baldi jr. Comentários

Eles se esbarraram na saída do trabalho. Os dois estavam parados no único canto do estacionamento onde o celular dava algum sinal, ele tentando confirmar um futebol – “terça, marcelo, eu disse, terça. não, não é sexta, é terça. depois de segunda. não, marcelo, eu disse, segunda, se-gun-da, deixa de ser grosso, velho” – e ela discutindo com alguém, um pouco nervosa, um pouco chorando, o bastante pra ele se sentir meio estranho por estar ali.

Os dois desligaram praticamente ao mesmo tempo e ela se virou, meio tímida, para o lado onde ele estava. “Tudo bem?” ele perguntou e ela respondeu com um meio sorriso “ah, namorado, sabe como é”. Ele tentou fazer uma cara que conciliasse as idéias de “sei como é isso de namorados” e “mas apenas hipoteticamente porque sou um homem hetero e nunca namorei caras”, mas achou que não tinha se saído muito bem. Acenou com a cabeça e foi embora.

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5 frases padrão pra você que não sabe nada de futebol usar em qualquer discussão sobre o assunto

joão baldi jr. Comentários

“O técnico tem que aproveitar melhor a base” – Mais ou menos como “o ano que vem”, “o próximo final de semana” e “aquela garota que você mal conhece”, as categorias de base de um time são o receptáculo máximo da esperança e do sebastianismo de qualquer torcida, mesmo que nunca vençam nenhuma competição, tenham atletas que aos 12 anos já tem seus passes divididos entre 14 empresários ou apenas promovam jogadores que aos 17 já adquiriram a mesma velocidade, ímpeto para jogar bola e felicidade com a vida que o Petkovic gastou 40 anos – incluindo 10 anos de guerra na antiga Iugoslávia – para conseguir. Ou seja, diante de qualquer discussão sobre futebol, seja no time, continente ou âmbito que for, a observação de que os jovens da base merecem mais oportunidades sempre vai ser recebida com um aceno encorajador e aquele comentário otimista de que “certeza que esse tal de Toró vai ser o novo Rivellino, tô te falando”.  Continua…

A fantastic fear of everything

joão baldi jr. Comentários

Eu nunca fui um cara corajoso. Nunca. Sabe aquelas histórias de crianças que fazem as coisas mais absurdas, se penduram nos lugares mais altos, brincam com as facas mais afiadas, pegam qualquer coisa em qualquer lugar e colocam na boca? Eu nunca fui assim. Eu era a criança que ficava sentadinha direito na cadeira, eu era o garotinho que tinha receio do porta-talheres, eu era o bebê que não apenas não pegava coisas do chão como possivelmente partiu direto do “gugu”, “dada” e mamãe” para “isso se encontra devidamente higienizado, minha boa senhora? não me venha com rodeios”.

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