Arquivos do mês fevereiro 2010

Macaé, uma aventura noir…

joão baldi jr.

Era uma tarde como todas as outras. O céu acinzentado cobria uma cidade de granito, vidro e sonhos destruídos. O calor do ar evaporava as pequenas e tristes gotas que caíam dos aparelhos de ar-condicionado antes mesmo que elas tocassem o chão. Realmente era um daqueles dias em que se poderia fritar um ovo na calçada e eu me perguntava quem teria coragem de comer uma omelete feita no meio-fio. Do alto do 26º andar onde eu me encontrava todas as pessoas pareciam formigas e as formigas simplesmente não apareceriam, ainda mais com meus 3 graus de miopia. Naquela grande cidade a esperança havia se perdido e se dependesse da sinalização ou dos taxistas ela jamais iria se encontrar de novo.

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Formas de fazer o seu trabalho tedioso parecer interessante #9, #10 e #11

joão baldi jr.

#9: Seja extremamente vago – Vamos admitir, você não tem um trabalho dos mais divertidos, daqueles que empolgam a galera numa mesa de bar e fazem com que as meninas achem que James Bond iria querer ter o mesmo resultado de teste vocacional que você. Mas você está inserido numa grande empresa, daquelas com grandes funções (ainda que você não saiba exatamente quais são), e isso te dá um trunfo, já que ok, você não faz nada de interessante, mas sua empresa faz, então você pode trabalhar em cima disso. Isso quer dizer que se você for extremamente vago e pensar no mais macro que for possível pensar, o seu trabalho vai parecer algo que, se não empolgante, ao menos oferece status e poder, como no caso de “ser o responsável pela disseminação de informações vitais entre as camadas do estrato corporativo, tanto no fluxo vertical quanto no horizontal, repassando dados que afetam diretamente a hierarquia e os resultados da função fim da empresa”. O que sim, quer dizer que você é o cara que envia emails informando quando algum gerente morre.

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Coisas que me fazem ficar feliz por estar solteiro #212 e #213

joão baldi jr.

#212: Carnaval com namorada - Podem me chamar de quadrado ou retrógrado, mas eu sou da opinião de que existem certas épocas do ano e certos tipos de evento que não foram exatamente feitos ou projetados para casais. Cinema? Ok, coisa pra casal. Shows? Ok, coisa pra casal. Carnaval? Nem tanto. Micareta? Não, não, não! Sabe a sensação que você imaginava que o John Wayne tinha quando conduzia uma diligência pelo meio de uma tribo de índios famintos e hostis? É mais ou menos assim que um cara, por mais seguro e menos ciumento que seja, se sente ao passear com a namorada pelo meio de um bloco ou uma micareta. Eles são bárbaros, eles são sujos, eles não tem princípios e eles não prestam, basicamente tudo aquilo que você se lembra de ser quando era solteiro. Então conduzir sua namorada em segurança pelo meio deles se torna uma missa complexa e épica, que requer toda a sua atenção e seriedade para que você não comece a jornada de mãos dadas com uma morena de cabelos cacheados e termine do outro lado da festa segurando pela mão um segurança chamado Antônio e que parece estar muito mais feliz do que deveria.

#213: Discussões de casal – Eu quase nunca entendo nada durante discussões de casal. Sério, sério mesmo. Mesmo no tempo em que eu namorava e estava totalmente adaptado e praticando constantemente o conceito eu simplesmente era incapaz de compreender os motivos, processar os argumentos ou mesmo, em vários instantes, notar que realmente existia uma briga acontecendo. Quase sempre era tudo súbito, meio descoordenado e totalmente incompreensível, como se eu entrasse num cinema polonês do meio de uma sessão dublada de Dogville e o cara da poltrona da frente tivesse um black power enorme que tapasse metade da tela. “Eu estou errado? Ela está errada? E se ela está errada, porque sou eu que tenho que pedir desculpas? E como assim pedir desculpas não adianta? O que adianta então? E por que você tem uma faca?”, esse tipo de sequência de informações é extremamente complexa pra mim, já que é o tipo de contexto em que até mesmo concordar com a outra pessoa desencadeia uma briga e frases como “não fica nervoso, sério. não fica nervoso…não fica nervoso!!!!” começam a surgir, deixando tudo absolutamente incompreensível. E claro, se depois de tudo resolvido você disser algo do tipo “viu, a gente não precisava ter brigado…” ela vai dizer “mas quem estava brigando aqui?!” e vai começar tudo de novo.

Top 5 – Armadilhas clássicas de começo de namoro

joão baldi jr.

Disponibilidade de tempo: Nada é mais perigoso do que sempre ter tempo para a outra pessoa no começo do relacionamento. Ela te chama pra ir ao cinema e você tem dentista? Você remarca. Ela te pede pra encontrar com ela na porta da faculdade na hora da pelada? Você falta ao futebol. Ela te chama pra ir no motel na hora em que passa Lost? Você decide baixar na internet e ver depois. E por aí as coisas vão até que o relacionamento se estabelece e você decide que é hora de ajeitar a sua vida, voltar à rotina normal e recuperar o tempo perdido nos seriados (“como assim o Boone morreu?”). Mas tente explicar isso pra ela? Sim, porque aquelas atitudes criaram nela a idéia de que o seu tempo, assim como um vestido ou uma camisola, é algo que ela pode usar como e quando quiser e você tem apenas o direito de ser comunicado(sim, eu estou supondo que ela fala com as camisolas e tal). E quando você tentar argumentar ainda vai ser recebido com um “ah, mas antes podia, né? Por que agora não pode?”. Sim, porque muitas namoradas pensam como funcionários públicos: benefício concedido é benefício adquirido e se não receber de novo mês que vem vai rolar greve.

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Breves observações sobre o carnaval desse ano

joão baldi jr. Comentários

#Ao contrário do que muita gente possa pensar o carnaval carioca é muito, muito, mas muito familiar. Crianças, idosos, bebês, caras vestidos de Beyoncé dançando “All the single ladies” em cima de uma banca de jornal, basicamente todas essas coisas que você encontraria em uma reunião de família num feriado prolongado. Ou isso ou então eu fui nos lugares errados durante todos os dias.

#Nunca subestime a capacidade de um grupo de homens de se apegar a um bordão por mais que ele se torne irritante, repetitivo e as pessoas já não suportem mais ouví-lo, ainda mais quando esse bordão for algo impressionantemente legal e que pode ser incluído em 97% das frases ditas no grupo, como é o caso de “aí sim, fomos surpreendidos novamente!”.

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Top 5 – Ex-vocalistas de grupos de pagode

joão baldi jr. Comentários

Rodriguinho: Ex-vocalista dos Travessos, a primeira boy-band com nome de série pornô gay da história da música brasileira, Rodriguinho conheceu no grupo o auge do sucesso, com canções como “Quando a gente ama”, um hino do pagode de corno; “Meu querubim”, hit máximo no programa Xaveco, apresentado por Celso Portiolli; e “Tô te filmando”, uma música sobre stalkers, pessoas obcecadas e coisas do tipo. Infelizmente sua carreira-solo não teve o mesmo destaque na mídia e apenas agora, com sua parceria com Thiaguinho na canção “Palavras de amigo” (que consiste basicamente em um cara avisando pro outro que a namorada dele é uma pistoleira e o outro reagindo com um “ah, tudo bem então…”) ele voltou aos holofotes e aos programas do Celso Portiolli, que são seu lugar de direito.

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Aquele sobre “Alta Fidelidade”, amadurecimento, a crise dos 25 e picles assassinos do espaço

joão baldi jr. Comentários

Eu acho que poucos livros que eu li até hoje conseguiram me dizer tanto sobre amadurecimento quanto “Alta fidelidade”. Claro, “Pergunte ao pó” é um dos meus livros favoritos, “A montanha mágica” e “O apanhador no campo de centeio” marcaram a minha adolescência, a “Saga do Clone” me sequelou para o resto da vida, mas existem várias coisas em “Alta Fidelidade” que tornaram a história de Rob Fleming o meu romance de formação por excelência (ainda que, sei lá, alguém possa dizer que literariamente o livro nem se enquadra exatamente nessa categoria ).

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Momentos de irritação na hora do almoço #25 e #26

joão baldi jr. Comentários

#25: Você está tendo um dia atipicamente complicado. Seu trabalho real, que costuma corresponder a 13% do tempo que você gasta no ambiente do escritório, subitamente atingiu uma proporção próxima dos 167% e subindo. Reuniões, demandas e deadlines que se parecem muito mais com aquela linha desenhada em torno dos cadáveres do que com prazos de verdade. São 12:45 e você ainda não conseguiu sair pra almoçar, preso na sala do seu gerente, que parece ter se tornado uma forma de vida baseada em luz, já que não faz menção de querer terminar a reunião. Finalmente, em algum momento ele se distrai gritando com algum outro funcionário e você consegue sair, acinzentado de fome, buscando a parte externa do prédio. Evita os restaurantes a la carte por causa do tempo (precisa estar em uma reunião as 13:15) e também evita as lanchonetes de fast-food (por causa da sua recém-adquirida úlcera, que se chama Ernest, em homenagem ao personagem dos filmes) e vai para o restaurante self-service mais próximo. Afinal, comida pronta e é só botar no prato, pesar e comer.

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Porque fiquei animadão com essa megafusão

joão baldi jr.

Supermercado Pão de Açúcar, bairro do Flamengo, Rio.

“Só isso, senhor?”

“Aham, só isso”

“O senhor é solteiro, certo?”

“Yep, solteiro, sim. Por que?”

“Ah, é por causa das dez pizzas prontas e das quatro lasanhas congeladas”

“Ah…bem…promoção, sabe como é…”

“O senhor não deveria…sei lá…comer outra coisa?”

“Huh…mas tipo, por que?”

“Bem, o senhor sempre compra aqui e tal…e o senhor engordou um bocado desde que começou a comprar aqui com a gente…”

“Eu? Bem…é, acho que sim…mas é que…noite, dá preguiça de cozinhar…”

“Poderia comer fora então, não?”

“Humm…err…sim, eu faço isso as vezes…”

“E outra coisa…o senhor é novo, não devia arrumar uma namorada, algo assim?”

“Bem…humm… não enquanto vocês venderem pizza por menos de dez reais. E essa lasanha realmente é boa, sério”

Pão de Açúcar: porque nós nos importamos com sua saúde e sua vida pessoal. E fazemos você ficar sem graça e dando satisfações na fila do caixa rápido.


Ao telefone com o serviço de atendimento da loja virtual das Casas Bahia

“Oi, eu estou telefonando por causa do pedido 9978674”

“Certo, senhor, preciso que o senhor confirme alguns dados, por favor”

[confirmação vagamente inútil de dados em que me perguntam meu estado civil, idade e signo]

“Então, o pedido está atrasado em vinte dias e no site consta que houve um erro na expedição. O que isso quer dizer?

“Quer dizer que houve um erro na expedição, senhor.”

“Ah…bem, quem poderia imaginar, né? Mas que tipo de erro seria esse?”

“Não sei informar, senhor. Mas pode ter sido um problema de acesso, problemas no transporte físico, falta do produto, várias coisas”

“Outra coisa que eu jamais imaginaria sozinho…E você tem uma nova data de entrega?”

“Bem, senhor, eu não tenho. Mas posso pedir urgência para o seu caso, e será feito um contato num prazo de três a cinco dias úteis”

“Parece legal. Só uma dúvida, essa urgência é a mesma que a outra atendente pediu cinco dias úteis atrás?”

“Errrrr…não sei dizer, senhor.”

“Resumindo: você não sabe o que aconteceu, não sabe porque aconteceu e não sabe me dizer quando vai ser resolvido, é isso?”

“Bem, senhor, eu vou fazer o pedido de urgência e te passar o protocolo, certo, senhor?”

“Tudo bem, ok”

“O protocolo é 83439434”

“Última dúvida. Esse é meu décimo protocolo, juntando todos eles eu ganho algum prêmio, desconto, posso pelo menos dedicar meu protocolo número 1000 para todas as crianças pobres e tal?”

“Hummm…acho que não, senhor…”

“Tudo bem, eu já imaginava…”

Casas Bahia virtual: porque nós não sabemos o que aconteceu com o seu ar-condicionado. E simplesmente ignoramos o seu sarcasmo. Quer um protocolo?