Arquivos do mês outubro 2008

37 dias

joão baldi jr. Comentários

Eu sinceramente não sei como te contar isso. Provavelmente você não vai acreditar, mas eu tenho que contar para o seu bem. Espero que você entenda. Se você não entender vai me magoar bastante, mas eu também vou compreender. Começou quando eu era criança.

O nome dela era Carla. Carlinha. Eu tinha sete anos, ela oito, mas sempre brincávamos juntos no pátio. Era naquela escola perto da minha casa, eu provavelmente já te mostrei quando passamos de carro por lá. Bem, foi com ela que eu dei meu primeiro beijo. Eu sei, é engraçado, mas eu ainda me lembro bem, foi atrás da casa da tia dela, Dona Lalá, provavelmente a senhora idosa mais chata que já pisou na face da Terra…Mas agora não é hora pra pensar na Dona Lalá.

Nós nos beijamos, beijo de criança. Selinho. Mas o primeiro beijo é sempre o primeiro beijo. Passamos a nos considerar namorados, graças às piadas do pai dela, que sempre tinha sido amigo do meu. E bem, era um namorinho, passeávamos de mãos dadas, dávamos um beijinho de vez em quando, brincávamos todo dia um na casa do outro. Isso durou um mês, até o pai dela ser transferido. Eu lembro dela chorando pra me contar, o rostinho ficando vermelho, o abraço apertado. Éramos muito colados, sempre fomos, desde ser vizinhos até colegas e depois…namorar…

Minha família ajudou a empacotar a mudança junto com os pais dela e trocamos um beijo no vidro, enquanto o pai dela se preparava pra sair com o carro. Na Serra de Petrópolis eles foram jogados pra fora da pista por uma carreta. Todos saíram com ferimentos leves, menos a Carla. Carlinha. Saiu pelo vidro e bateu com a cabeça. Nem teve tempo de chegar até o hospital. Meu primeiro velório. Minha mãe ainda tem o terninho preto que eu usei.

Depois, quando eu já tinha 14, veio a Flaviana. Colega de sala, sempre falante, bem mais alta que eu. Já tinha ficado com o Gabriel, o babaca da oitava série, mas terminou com ele pra ficar comigo. Eu diria que foi a minha primeira conquista em termos de…romance, posso dizer assim. Nos beijávamos no fundo da sala durante as aulas do Professor Sobral, aquele carequinha que meu pai te apresentou outro dia. Meus primeiros amassos. Desculpa, estou dando detalhes demais, não? É que as lembranças voltam…Mas então…Um dia nós brigamos e ela foi pra casa dos avós. Passaram-se duas semanas e eu não soube dela. Não telefonei por birra, achei que ela estava me evitando.

Na semana seguinte falaram na escola que ela tinha tido um caso súbito de hepatite. A doença atacou rapidamente o fígado e ela não resistiu. Não tive coragem de ir ao enterro. Meus pais me trocaram de colégio depois disso.

Aos 17 foi a Larissa. Colega da minha irmã mais nova, se você procurar bem no mural da Cristiana acho que ainda tem uma foto dela por lá. Sempre foi doidinha em mim, mas eu só fui reparar nela quando a Teresa me deu um fora totalmente degradante na festa de Halloween do curso de inglês. Era engraçadinha, ainda que meio chata. Mas era novinha, muito bonita e carente. Admito que me aproveitei disso pra tirar a virgindade dela.

Começamos a namorar e eu vi que não ia agüentar muito tempo a garota, afinal, além de sexo eu podia ter o que com ela? E ela ficava mais e mais grudenta à cada dia que passava. Decidi terminar e fui até a casa dela. Quando cheguei lá tinha uma ambulância na porta. O pai dela tinha bebido e matado ela e a mãe, pra depois se matar. Me lembro que foi notícia no país todo. Problemas na empresa, algo assim. E ele sempre tinha sido um alcoólatra, ela passava todo aquele tempo lá em casa exatamente pra fugir dele.

Para esquecer disso meus pais me mandaram pra Espanha, visitar meus avós. Lá conheci Sofia, que foi minha professora no curso de espanhol da embaixada. Morena, elétrica, filha de bascos. Eu ia ficar só um mês lá, mas quis mais uma semana pra poder me despedir melhor dela. Um namoro de verão, desses sem compromisso, com uma mulher mais velha, que tenta te ensinar o que você não sabe e acha graça nisso.

No dia do meu embarque ela não foi se despedir. Pelos monitores de TV do aeroporto de Madri eu vi o nome dela na lista de terroristas mortos pela polícia num atentado do ETA à Barcelona. Um pouco do meu coração ficou em Madri naquele dia.

Com 20 eu fui reencontrar Luana, uma prima de segundo grau, que eu não via desde pequeno. Nos aproximamos muito, mas basicamente como amigos. Ela não era exatamente bonita e eu não me sentia preparado pra ficar com alguém de novo.

Mas um dia acabamos nos beijando, os dois bêbados. Tentamos não deixar que isso atrapalhasse a amizade nem fazer daquilo nada de mais. Ela era jogadora de handebol, fazia parte da seleção estadual até, aquela medalha no meu armário é dela, você pode reparar. E fui num jogo de handebol que aconteceu. Ela estava marcando uma garota enorme, praticamente um tanque de guerra panzer nazista, chamada Popota, me lembro até hoje. O jogo estava 17 a 17 e a Popota recebeu a bola na ponta direita da quadra. Fez o movimento de cortar para o meio e arremessou. Luana se jogou para defender, mas não se protegeu do jeito certo e a bola bateu na cabeça. Era uma bola dura e como eu disse…Popota era um monstro.

Lu caiu inconsciente ali mesmo. No hospital descobriram que uma artéria havia se rompido no cérebro. Ela entrou em coma. Acho que nem os médicos entenderam direito o que aconteceu. O pai dela ameaçou Popota de morte, mas ela deu uma surra nele e ele viu que não adiantava culpar ninguém além do destino. Uma semana depois do acidente ela ainda estava em coma e eu, chorando, disse, sentado na beira da cama, que ela sempre seria minha namorada. 37 dias depois a atividade cerebral cessou. Ela ficaria feliz de saber que os órgãos dela foram sido doados.

Tranquei a faculdade. Meus pais me mandaram pra uma espécie de clínica/spa na Bahia. Eu sentia que de alguma forma aquilo tudo era culpa minha e não queria nunca mais ficar com ninguém. Passei a temer as mulheres, pelo mal que eu podia fazer a elas. Simplesmente havia alguma coisa em mim que causava dor às pessoas que eu amava. Mas Clarice não acreditou em mim.

Ela cantava num trio e sonhava em um dia ir pra Salvador cantar num grande bloco. Era simples, divertida, tinha toda aquela calma que se supõe que uma baiana deva ter e mais um jeito de criança, uma inocência impressionante mesmo. Insistiu tanto em mim, confiou tanto em mim, que nós ficamos, com a condição de que ela nunca considerasse aquilo um namoro. E fomos ficando. Passamos 8 meses juntos, até chegar o carnaval.

Estávamos em janeiro, mas as coisas já tinham começado a ficar movimentadas por lá. Fomos pra Salvador, onde ela tinha começado a cantar num bloco pequeno, mas que já era, pelo menos em parte, a realização de um sonho pra ela. Num dia, começo de janeiro, ela dedicou, de cima do palco, uma música pra mim, durante uma festa. “Essa é pro meu namorado, Ricardo!”. Provável que você nunca tenha ouvido a música… É aquela “sou um peixinho fora da água sem você, e não demore volte logo, bem querer”. É, você nunca ouviu.

Depois disso nós brigamos, claro. Eu tinha feito ela prometer que nunca ia dizer aquilo. Mas ela sorriu e aquele sorriso me desarmou. Eu deveria saber que não ia dar certo, mas eu acreditei que poderia. Eu sou culpado por acreditar? Provavelmente sim.

Na terça-feira de carnaval daquele ano, quando ela cantava no alto do trio, alguém lançou uma garrafa de água mineral pra que ela pegasse, afinal, todos suavam absurdamente no calor da Bahia. Ela se esticou para alcançar e o fio do microfone se enrolou nos seus pés. Ela tropeçou e caiu do alto do trio, sendo logo depois esmagada pelas rodas. Você deve ter reparado que eu choro sempre que ouço “Água Mineral” ser cantada. Espero que você entenda agora.

Depois disso eu vi que teria que me afastar, definitivamente, de qualquer mulher. Fui para o monastério da ordem Franciscana, no interior de Minas. Era uma vida simples, mas tranqüila. Eu me sentia satisfeito, finalmente podia viver em paz. Ou pelo menos eu pensava assim. Até que fomos fazer uma visita a uma comunidade carente numa cidade próxima. O lugar era triste, desolado, pobre. Lá eu conheci Lucinda, a professora da única escola do lugar. Idealista, recém-formada, estava tentando melhorar a qualidade da educação das crianças e pediu ajuda aos monges. Eu, por ser o mais novo do mosteiro, além de ser articulado e gostar de crianças, fui indicado pra ajudar a professora no que ela precisasse.

Não demorou muito para que um sentimento nascesse entre nós. Mas eu fiz questão de contar a minha história toda, para que ela visse como nada de bom poderia surgir daquela idéia. Mas ela era cabeça-dura e eu, fraco e carente após três anos sem contato com nenhuma mulher, aceitei. Abandonei a ordem e fui viver com ela. Decidimos ficar logo noivos, talvez fosse apenas o namoro a causa de tudo. 3 dias antes do casamento ela fugiu com um ex-namorado. Confesso que até certo ponto eu respirei aliviado, afinal, as coisas haviam terminado bem.

Mas não terminaram, é exatamente por isso que eu estou contando isso tudo pra você agora. Eu soube ontem que Lucinda morreu dois dias depois do dia que seria o do casamento, esmagada por um porco caído de uma sacada em Caxambu. Sim, uma senhora idosa criava porcos em seu apartamento, talvez por saudades de sua vida na fazenda. Sim, porcos. É, complicado de entender.

E quando eu soube disso eu tive que te contar. Porque quer dizer que a maldição não acabou…Eu queria te dizer que só aceitei começar esse namoro porque achei que tudo já tinha passado, mas agora…Lucinda morreu porque não me deu tempo de terminar com ela, então teoricamente ainda era minha namorada. E todas as minhas namoradas morrem 37 dias depois que começam a namorar comigo, desde a Carla até hoje…E eu não quero isso pra você…Por isso que hoje, quando nós completamos 36 dias de namoro, eu vim aqui terminar tudo. Porque eu te amo e não quero que nada de ruim aconteça com você. Se eu faço isso é pra te proteger. Você entende? Eu espero que entenda…Isso dói em mim tanto ou mais do que dói em você, porque você pode achar outro cara, mas eu sei que você era minha última chance de felicidade. Mas eu vou aprender a viver sozinho.

Não vou mais poder te ver, porque não ia conseguir suportar você levando sua vida em frente, sabendo que eu nunca vou poder fazer a mesma coisa. Mas saiba que eu te amo. Seja feliz.

“E aí? Ela acreditou?”

“Não sei bem…ela estava tão chocada que mal disse uma palavra…Só foi embora…mas pelo olhar, parecia ter pena de mim…Então deve ter funcionado, eu acho.”

“Mas você forçou a barra dessa vez, você sabe…”

“Você acha?”

“Porra, Ricardo, Popota? Popota matando a menina com bolada foi dose…E aquela do trio eu não sei como você falou sem rir.”

“No começo foi fácil, mas do meio pra frente ficou complicado inventar…O porco caindo da sacada eu sinceramente não sei de onde saiu…”

“Mas sério, precisava disso tudo? Maldição dos 37 dias, inventar gente morta…”

“Queria que eu fizesse o que? Fosse sincero e dissesse que é porque ela ronca na cama? Eu sou um cavalheiro, pô!”

“É, nisso você tem razão…Mas a Popota foi sacanagem…”

“Ok, a Popota eu admito que foi forçada…”

Here comes the book

joão baldi jr. Comentários

Como todo mundo sabe, eu tenho um livro de contos que eu planejava terminar antes do final do ano. As histórias estavam prontas, algumas já rodando entre o Yuri e o Thiago (meus dois conselheiros literários) e outras ainda aqui no computador, sendo terminadas. Porém, conforme foi chegando a hora de fechar o material foi ficando claro que existia uma baita diferença temática e estilística (?!) entre o material, que complicava a união num todo coeso. Não que eu escreva coisas coesas ou que eu tenha um estilo, mas vocês entenderam. Havia uma diferença grande demais entre crônicas, contos e outras coisas,que impediam que eu juntasse tudo no mesmo balaio.

Mas ao mesmo tempo eu notei que gosto e me orgulho demais tanto das coisas mais bobas e idiotas quanto das coisas mais sérias que eu tenho escrito ultimamente, então, levando em consideração novamente o meu problema de dupla personalidade, resolvi “montar” dois livros, um com os contos mais “sérios” e outro com o material mais de humor (ou coisa parecida), basicamente com coisas retiradas dos blogs e alguns contos mais fanfarrões.

Bem, aí vai a atual escalação do livro mais sério, temporariamente chamado “Alguém sempre morre no final”.

Batman 2

Bonito

O dia em que comecei a explodir prédios

Página de Diário

Uma história de detetive

Você deveria ir apenas nas festas certas

Weezer

A Invasão dos Homens-Borracha

A mulher perfeita

Apenas Ensaiando

Conversa de namorados

Esquecendo Coisas

Ninguém entende uma boa citação

O Garoto-Aranha

Página de Diário

Zombie Pictures and Horror Shows

Punks brigões não ouvem Blink 182

107 Beijos Perdidos

Um estudo em vermelho. Com sardas.

Dos contos listados três estão inacabados e três eu ainda não sei se vão poder entrar porque estão com publicação prevista ou tentando publicação em outro lugar, ou seja, essa escalação tende a mudar, mas a base está praticamente pronta. O plano é que até o final de novembro Yuri e Thiago recebam suas cópias para leitura, Thiago me retorne a dele até dezembro e Yuri até outubro de 2012, permitindo que o livro saia, algum dia, se não chover. Vamos esperar pra ver no que dá.

Movie Review #4

joão baldi jr.

“O Procurado”

Cotação: 2/8

Quando eu li “Wanted”, a minissérie de Mark Millar e J.G. Jones na qual o filme “Procurado” se “baseia”, isso já há alguns anos, eu me lembro de ter pensado “caramba, aí está um roteiro do carvalho pra um filme de ação”. Tínhamos um mote clássico da “jornada do herói”, com um perdedor que descobre ser filho do maior assassino do mundo e é recrutado por uma irmandade de vilões para sair chutando bundas por aí; tínhamos já alguns papéis bem legais nos quais dava pra encaixar desde um astro novato ascendente até uma atriz gostosa altamente requisitada e um ator experiente clássico que trouxesse credibilidade ao filme; e claro, tínhamos pretexto para algumas das cenas de ação mais absurdamente legais que o cinema já tivesse visto.

Então a minha reação quando anunciaram uma adaptação para os cinemas foi de felicidade total, afinal, ia sair do papel uma das coisas mais irresponsáveis e divertidas que eu já tinha lido nos quadrinhos. E cara, tinha Angelina Jolie no papel da gostosa! Cool! James Mcavoy como Wesley Gibson! Legal! E Morgan Freeman faria o papel de Sloan! Mas quem era Sloan? Não tinha nenhum Sloan! E começamos a descer a ladeira. Me deixem explicar por que.

Nos quadrinhos Wesley Gibson é, assim como no filme, um cara ferrado, vivendo uma droga de vida e é recrutado por uma organização secreta de super-vilões que diz a ele que, por ser filho do maior assassino que já existiu, ele é parte do grupo e pode fazer o que quiser. Sim, o que quiser. Não existem mais super-heróis, todos estão mortos, então os vilões dominam o mundo secretamente e podem fazer o quiserem sem medo, incluindo matar, estuprar, roubar, tudo. E claro, ele é uma máquina de matar natural, incapaz de ser contido. E nisso reside uma das questões mais legais da história: o que você faria se não tivesse que se preocupar com as conseqüências? Se tivesse um passe livre para fazer tudo que quisesse com quem quisesse?

Como pano de fundo temos a busca dele pelo assassino do pai e o conflito entre as facções de supervilões (cada grupo controlando um continente) que vão se entrelaçando até um final que, se não é genial, é totalmente divertido.

No filme saem de cena os super-vilões, e os roteiristas, alegando que isso daria mais “veracidade” ao filme, forjaram o conceito de uma liga de assassinos formada por um grupo de tecelões para matar pessoas indicadas em um pedaço de tecido criado por um tear gigante. Ou algo assim. Beeeeem melhor do que super-vilões, claro, óbvio. O filme começa a enveredar então por uma série de erros de roteiro, reviravoltas óbvias e cenas de ação absurdamente inexplicáveis, tudo isso comandado em ritmo de “Guardiões da Noite” pelo diretor russo Timur Bekmambetov, que até sabe dirigir uma cena divertida de ação, mas não poderia se sair bem com um roteiro infame como esse.

James Mcavoy, o fauno Túmus do primeiro “Crônicas de Nárnia” se sai bem no papel e consegue se salvar, mas Morgan Freeman evidentemente não precisava desse filme na vida dele, assim como Angelina Jolie, que ainda é muito válida, mas tem que aceitar que em breve vai ter que passar o papel clássico de “gostosa randômica” pra outras atrizes.

No final das contas “Procurado” acaba sendo o desperdício total de um bom conceito, perdido em um roteiro no mínimo tosco, que transformou o filme em um apanhado de cenas de ação e balas que fazem curva. Não recomendo e enfatizo: se quiser saber como esse filme poderia ter sido legal, procure “Wanted” em alguma comic shop ou compre na internet. Ou baixe na internet pra ler. Mas não diga que eu recomendei uma coisa dessas…

P.S: Alguém poderia me explicar a cena dos ratinhos, no final? Sério, eu não consigo aceitar que o roteiro tenha sido tão idiota, eu é que não devo ter entendido…Como ele colocou os relógios de pulso em todos aqueles ratos?

Errata

joão baldi jr.

Correções e reações de amigos e testemunhas sobre o post “A garota da gaita”

R. – Amigo: “Você deu uma romanceada nisso, cara…A gente não teve que te pressionar e a conversa com a garota durou no máximo 5 minutos. E eu não lembro dela ter te passado o telefone. E nem ficamos tão bolados assim. A gente tava bêbado, pô. Mas a parte sobre o cara dançando sem camisa é verdade.”

F. – Amigo: “Você deu uma romanceada nisso, fácil. A garota não era tão bonita, nenhum de nós chegou nela e o baixista não era gay. Eu acho. E na verdade nem era bem uma garota, era um bode…OK, me confundi, o bode foi na outra noite. Eu estava bêbado.Mas a parte sobre o cara dançando sem camisa é verdade.”

F. – Amigo e Dançarino: “Eu não lembro de nada porque estava muito doid…Digo, porque não estava lá. Eu não estava lá. Eu não estava lá. Você só pode estar romanceando isso, porque eu não estava lá. Nem sei do que você está falando. Eu nem conheço esse blog. Eu nem te conheço. Quem são vocês?”

Crônicas da ex-adolescência

joão baldi jr. Comentários

3/20

“A garota da gaita”

Eu nunca me dei muito bem com as mulheres, fato. Não sou bonito, não tenho papo, sou meio gago e totalmente desprovido de qualquer senso de oportunidade, o que me torna um predador tão perigoso quanto a doninha, o hamster e um porquinho da índia cansado. Então eu, desde o começo da adolescência, me acostumei com a idéia de que eu provavelmente iria sobrar com freqüência nas festinhas, noitadas e shows e não foram muitas as  noites que fugiram a essa regra nada animadora.

Não que eu nunca arrumasse nada, claro. Em várias noites, fosse por sorte (muita), por mérito da bebida (muita) ou por se tratar de uma daquelas ocasiões em que até um panda verde com um saco de papel na cabeça conseguiria “pegar alguém”, eu até me saía bem, ainda que nada que me permitisse ter muitas histórias pra contar nas rodinhas ou motivos pra tirar onda. Em suma, eu sempre fui aquele cara que, assim como vários zagueiros clássicos, jogava totalmente na sobra. Se todo mundo conseguisse eu provavelmente (com alguma sorte, claro) iria conseguir, mas se alguém tivesse que ficar sem, pode apostar que seria eu. A não ser, claro, na noite da garota da gaita.

Tempos da faculdade, festinha. Eu solteiro (o que foi raro nos tempos da faculdade). Showzinho rolando, uma daquelas bandas B5, totalmente sem futuro. A bebida corria como o leito do São Francisco e as pessoas perdiam a razão rapidamente. Um amigo meu estava sem camisa no alto do balcão do bar, os outros todos chegando em alguém e eu lá, cara de paisagem, copo de cerveja na mão, contando com a idéia de que uma garota (assim como um soco numa briga dentro de um ônibus ou algo do tipo) iria acabar sobrando pra mim.

No canto, fazendo uma cara que variava entre o nojinho e o “me sinto como Flash Gordon no planeta Mongo”, estava uma garota branquinha, baixinha, cabelos castanhos, magrinha, o tipo que seria descrita como “gatinha”. E claro, em torno dela, a clássica roda de caras que “chegam chegando”. Eu, que não tinha nada melhor pra fazer e gosto de ver a vida pessoal dos outros como se fosse o Discovery Channel, fiquei encostado na bancada, reparando ocasionalmente na situação. E os caras foram chegando, chegando, chegando, e sendo repelidos um a um, sem nem mesmo poder começar um papo. Incluindo, claro, os meus amigos.

Chegamos num ponto em que as únicas pessoas da festa que não tinham chegado na garota eram as amigas dela, o baixista da banda (que era gay, acho) e eu. Surgiu então, como nos velhos tempos da sexta série, uma pressão idiota/sádica entre os meus amigos pra que eu tentasse algum tipo de abordagem, apenas pelo fato de que eu não parecia empolgado e a idéia era daquelas que nem a pau ia dar certo. E começou a chateação, a insistência, a pentelhação, o peteleco na orelha e as insinuações sobre eu ter uma opção sexual “discrepante”.

Eu, claro, fiquei rapidamente de saco cheio e disse que ok, ia lá falar com ela, tomar um corte brusco e voltar pra gente ir pra casa. Como eu estava com pressa, eu decidi que iria ser o mais idiota possível, pra ela me descartar rápido e todo mundo ir embora. Me preparei, respirei fundo, esbocei um sorrisinho de canto e mandei o que de pior minha mente podia oferecer.

“Oi, sabia que eu toco gaita?”

Disse isso e me preparei pra escutar um monte. Mas nada me prepararia para aquilo. Nada. Ela piscou algumas vezes, me olhou fixamente, sorriu e falou uma frase que eu acho que nunca vou esquecer.

“Sério? Cara, eu adoro gaita, qual é o seu nome? Vem cá pra gente conversar!”

Nessa hora eu fiquei estático. Primeiro porque eu não estava preparado pra conversar, depois porque nada daquilo fazia sentido e em último lugar porque, claro, eu não toco gaita. Fomos pro canto e ela desandou a falar sobre gaita, afinação de gaita, grandes gaitistas e coisas do tipo, enquanto eu abobado, replicava com o pouco que eu sabia sobre o assunto. Depois de sei lá quanto tempo de uma das conversas mais aterrorizantes da minha vida, ela disse que precisava ir pra casa, me deu um beijo no rosto, falou que foi um prazer me conhecer e me passou o telefone dela.

Voltei, orgulhoso (e sabendo muito mais sobre gaitas) para perto do meu círculo de amigos. O respeito nos olhos deles era evidente, assim como o total e absoluto choque diante da falta de sentido da situação, e enquanto entrávamos no carro ficava claro que eu teoricamente era quem tinha saído ganhando na noite (desconsiderando meu amigo que transou com uma mulher debaixo de uma mesa). É, era uma que eu tinha ganho. A noite da garota da gaita.

P.S: Eu é claro, perdi o telefone. E nunca mais vi a garota. Mas não vamos tirar meu mérito com detalhes…